@s anarquistas não votamos
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Mais uma vez estamos imers@s no circo eleitoral que nos recorda periodicamente, sob um ou outro parlamento a ocupar, que vivemos em democracia. Mais uma vez vemos as elites dirigentes convertidas em classes mendicantes, quem em uma irónica e terrível reviravolta do sistema mendigam a legitimidade do seu poder e, como nos custa menos do que uma moeda num chapéu, damos-lha.
Mais uma vez somos acossad@s com propaganda obscena e até com ameaças de invasões (@s vizinh@s de Compostela recebemos nas nossas moradas cartas do PSOE que ameaçam com vir às nossas casas). Mais uma vez somos apelad@s na nossa responsavilidade cívica a escolher uma opção de governo dentro duma não-opção de sistema. E mais uma vez, muita gente para quem a concorrência eleitoral é apenas uma anédota, muita gente que acreditamos em uma associação livre de iguais e que pulamos pela construção e expansão de espaços regidos pelo pacto contínuo e liberados da violência sistémica do capital, devemos expressar a nossa posição: a abstenção, o que vem expressar uma postura vital e moral mais profunda e uma posição frontal quanto ao sistema: a liberdade e a desobediência.
Assí, ante a nova citação eleitoral que esta vez nos propom o Parlamento e a Junta da Galiza (é de notar que ante a proliferação de comícios e como síntoma da qualidade meramente estética destes, muitas vezes nem sabemos em que votamos), @s anarquistas voltamos manifestar que a abstenção é a única posição válida, tanto na teoria como na prática, coisas ambas assimiladas em uma só pel@s anarquistas.
@s anarquistas não acreditamos em um sistema que instaura o voto de representantes e impossibilita a decisão sobre todas e quantas eventualidades nos afetam nas nossas vidas. Entendemos que somos assí despojad@s da nossa capacidade e vontade de governo, é dizer, da nossa auto-determinação, por uma apropriação ilegítima de quem se da, pela via da violência, o direito de dirigir às vidas alheias.
@s anarquistas só defendemos um sistema onde a tomada de decisões se faz no próprio espaço de debate onde participa o conjunto de afetad@s pela questão e onde se participa com liberdade e responsabilidade. De aí que não podamos acreditar nem defender transitóriamente um sistema que instaura um grupo que verticaliça a sociedade ao situar-se na cima e apropriar-se da exclusiva da decisão, ao tempo que se fam praticamente inalcansaveis à hora de render contas pela sua atuação.
Para além, entendemos que fundamentos básicos das nossas vidas e das nossas relações, como são a liberdade ou a igualdade, são irrenunciaveis, pelo tanto e pelas rações aduzidas, não podemos concorrer nestes processos sem perder a nossa condição de pessoas livres.
Mas tambem sabemos que na prática o voto e o conseqüente mantimento ou troca de governo não resolve nada. Porem estamos mui longe de manter a fictícia postura de que todos os partidos são iguais. Há partidos mais dominados pela banca do que outros, partidos constituidos por mais empresári@s do que otros, partidos com mais ligações com a Igreja do que outros, partidos que legitimam e permetem a violência militar no mundo mais do que outros, partidos mais afetados pela estêtica do que outros e que elevam minimamente o seu compromisso social. Mas o facto é que nenhum partido deixa de se mover nestas tessituras, dado o atual estádio do sistema capitalista e o reduzido marco de atuação que permete a legislação básica espanhola.
Entendemos tambem que a contínua participação eleitoral e o mantimento do crêdito no sistema que esta sostém, são um obstáculo ou quanto menos um factor de ralentização na construção de alternativas autónomas e liberadoras.
Fai-se evidente que não se trata de deixar de votar en um ou outro comício. Trata-se de tomar a abstenção como um aspecto mais de uma atitude beligerante com o poder, que define como prática fulcral a desobediência. Este é o aspecto negativo da nossa relação com o poder. Desobedecemos aquelo que agrede à nossa moral, desobedecemos aos exêrcitos, desobedecemos a certas obrigações fiscais, desobedecemos ao matrimónio, desobedecemos tambem ao sistema eleitoral. Mas tambem exercitamos um sentido positivo e construtivo que vai além da desobediência, mas unido a ela.
Trata-se de constituir-nos como abstencionistas ao sistema, de analisar este desde um ponto de vista global e radical, e de agir no sentido de abrir fendas desde as que podamos construir alternativas não capitalistas e não autoritárias. Não podemos elaborar um guia de actuação neste sentido, nom faria sentido, em quanto que deve ser a experiência diária e confrontada dos coletivos quem marque o caminho, mas sim deixar claro que devemos agir em todos os eidos, desde o econômico até as nossas relações pessoais, e que não há tentativa nem experiência pequena nem pouco importante. É precisamente mudando o quotidiano, o diário, desde abaixo, desde as suas manifestações mais pequenas, como remataremos com o capitalismo.
É simplesmente lembrar a velha legenda: nossos sonhos não cabem em suas urnas, e construir passo a passo e decididamente nossos sonhos.














