Entrevista com Ren de Ren
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Recentemente, o Coletivo Editorial Ren de Ren publicou seu segundo livro coletivo, “A Civilização Enferma”, obra onde “se constrói uma rigorosa e implacável observação do processo de industrialização da vida”. O primeiro trabalho editado por este coletivo galego é instigante e certeiro: “A falácia da sustentabilidade”. Em sua página eletrônica são abordadas várias questões como desenvolvimento, sustentabilidade, capitalismo verde, entre outros temas. Acompanhe a seguir a entrevista que o Coletivo Ren de Ren concedeu à ANA.
Agência de Notícias Anarquistas > Quando vocês tiveram a idéia de criar o Coletivo Ren de Ren? Com que atitude, sensibilidades, nasce o grupo?
Coletivo Ren de Ren < O Coletivo Ren de Ren surge de um encontro libertário que aconteceu em Ourense no ano de 2007. A idéia inicial era reunir algumas das individualidades anarquistas existentes na Galícia à volta de um projeto comum que pretendia ligar as diversas sensibilidades existentes. A Galícia é um país pequeno embora o movimento anarquista esteja muito atomizado. Embora a sua presença tenha sido hegemônica historicamente (antes de1936), hoje apenas subsistem, para além das organizações anarcosindicalistas, pequenos grupos autônomos próximos do anarquismo insurrecionário, do comunismo de conselhos, e ainda a insurgência poética e artística... O projeto Ren de Ren tenta ser um elemento a mais no processo de ligação entre as pessoas do mundo libertário sem interação com outros movimentos da esquerda revolucionária, procurando sempre inspiração nas filosofias e experiências revolucionárias anarquistas e sua amarração com o atual estado das coisas.
A iniciativa deste coletivo bem se poderia inscrever entre as que não reclamam adjetivos para uma prática libertaria em constante evolução. Concretamente as bases do projeto editorial são: a independência econômica e ideológica de qualquer instituição, organização ou associação, o funcionamento autogerido, autônomo e assembleário, autofinanciamento, ausência de publicidade e de contraprestações econômicas tanto para os colaboradores como para o coletivo editor; rigor nos resultados e métodos, atitudes anticapitalistas e que seja frutuoso em termos libertários. Sem mais.
ANA > O que significa Ren de Ren?
CRR < “Nada de Nada”.
ANA > E o que vocês editaram até agora?
CRR < Ate hoje colocamos em circulação duas monografias coletivas nas quais participaram quase uma centena de pessoas. Estes trabalhos tiveram uma difusão local em versão impressa, que é a que colocamos à venda, e global e totalmente gratuita através da nossa página na Internet.
ANA > Vocês publicam trabalhos de outras pessoas. Há alguma condição para isso, como vocês escolhem o que irão publicar? Ecologia é o principal tema do trabalho de vocês?
CRR < O Coletivo Ren de Ren nasce na Galícia e, portanto procura o intercâmbio de idéias na língua galego-portuguesa, mas também contamos com as valiosíssimas contribuições de companheiros como Pedro García Olivo, Miguel Amorós, Agustín García Calvo... que mantêm viva a comunicação com outros lugares do território onde nos movemos e dos países com os quais mantemos contato.
O coletivo constitui-se assim para além deste grupo editor, por pessoas que lêem, debatem, escrevem, desenham, diagramam, distribuem... já que todos os esforços que contém cada publicação não são senão uma mostra deste trabalho coletivo, completamente original e sem objetivo de lucro.
Ren de Ren trata de oferecer suporte a idéias, projetos e soluções práticas contra o Estado, o capital, as religiões e toda a forma de poder e governo, lutando pela construção de uma sociedade, justa e igualitária, de indivíduos livres. Como dissemos, pretendemos abordar todos os temas de maneira assembleária, através do consenso. É no debate aberto que surgem as temáticas que estão sempre em aberto. Por estes dias sairá do prelo "A civilização enferma", um novo monográfico de Ren de Ren que submete a observação a monstruosa indústria da saúde e a doença provocada pela indústria.
ANA > Há alguma rentabilidade na venda das publicações para editar mais livros?
CRR < Na realidade o que fazemos com a venda do material apenas é recuperar parte do dinheiro que custa a produção, um dinheiro que nós mesmos adiantamos. A finalidade deste projeto não é estabelecermos uma rede de relações comerciais, mas sim uma rede de afinidade e de cooperação.
ANA > Depois de dois anos de vida como coletivo editorial, vocês fazem um balanço positivo da difusão destes trabalhos?
CRR < Sim. Mas para sermos exatos temos que chamar a atenção para uma das bases do nosso projeto participativo: com estas publicações não pretendemos doutrinar ninguém.
Ren de Ren só acredita na expressão, na ação espontânea e na criatividade social que procura a máxima liberdade e o bem comum. O que valorizamos principalmente é o extraordinário apoio recebido por parte dos numerosos indivíduos e agrupamentos que colaboraram em todas as fases do projeto, ativando ou revitalizando as relações de cooperação e as ferramentas para a comunicação entre os companheiros e companheiras do nosso meio. Desta perspectiva a experiência já foi enormemente satisfatória. Mas só o tempo dirá quanto avançamos no nosso objetivo inicial de contribuir na construção de um espaço libertário mais amplo e mais próximo dos desafios do nosso tempo.
ANA > E qual têm sido a principal dificuldade?
CRR < Essa enorme dispersão e atomização social de que falávamos antes se reflete na convivência com atitudes de mútua desconfiança entre alguns dos grupos libertários do nosso meio. Uma situação que, pensamos, dificulta muito a comunicação, desativa a solidariedade e impede uma prática conseqüentemente libertária.
Além disso, desde o primeiro momento tentamos com pouco sucesso que as pessoas que simpatizam com o que fazemos aumentem sua colaboração no projeto de forma que Ren de Ren possa prescindir das nossas individualidades.
ANA > Além das publicações, o que mais vocês produzem?
CRR < Esta rede de afinidade e apoio mútuo que é o Ren de Ren está organizada, hoje, como coletivo editor, como fórum de debate e como dispositivo de distribuição. Isto logicamente não impede que as companheiras e companheiros mantenham os seus compromissos individuais noutras frentes da luta social e (contra)cultural.
ANA > Por favor, falem um pouco das principais lutas ambientais na Galícia...
CRR < A Galícia contemporânea está a viver uma contínua e profunda crise ambiental motivada pela irrupção do capitalismo industrial e a recente introdução das suas técnicas de dominação nos setores produtivos tradicionais: o mar (sobre-exploração, turismo, plano agrícola...), o agro (concentração de propriedades, transgênicos...) e o monte (vacas loucas, abandono, incêndios florestais...). Tudo isto a juntar ao negócio especulativo com as fontes de energia (gás natural, térmica, aerogeradores, hidráulicas...) e com as grandes infra-estruturas desnecessárias (Trem de Alta Velocidade, macro-portos...)
O afundamento em 2002 do petroleiro Prestige com 77.000 toneladas de óleo provocou na Galícia um importante movimento de protesto e ativismo ecológico e social de base assembleária. A crescente recuperação de boa parte deste trabalho de base por parte das organizações políticas partidárias fez com que surgisse, para muita gente, a necessidade de manter-se à margem. Desde aí as numerosas e diversas lutas populares relacionadas com o meio ambiental encontram-se pela primeira vez de modo livre num espaço não partidário chamado "Galícia Não Se Vende" que proclama a sua rebeldia frente a qualquer governo (Governe quem governe, Galícia não se vende!). Também é desta rebeldia que nasce o Ren de Ren.
ANA > Dessas lutas que vocês comentaram, há alguma que vocês destacariam? Que a resposta da população tem sido efetiva? Por exemplo, há oposição em relação aos macro-portos?
CRR < A geografia inteira do nosso país está cheia de conflitos ambientais que se tornam visíveis na luta das assembléias e grupos vizinhos que se opõem à destruição do seu modo de vida e de trabalho. São principalmente estas pequenas lutas contra um viaduto, contra um porto desportivo, contra alguma nova exploração mineira, em defesa de um rio... as que mantêm acesa a chama contestatória na nossa terra.
Além dos contínuos protestos contra os inumeráveis derramamentos tóxicos e as múltiplas indústrias perigosas e contaminantes (Planta de Gás na costa litorânea de Ferrol, Fábrica de Celulosa na costa litorânea de Pontevedra, Central Térmica das Pontes...), cabe destacar o movimento em defesa do litoral galego. Há vinte anos que os nossos litorais sofrem, ademais da investida da nova indústria, uma constante maré especulativa que não para de gerar conflitos com os vizinhos.
A eficácia destes protestos populares tem que ser analisadas já que até há pouco tempo foram manipulados e usados pela oposição política. Um exemplo disto foi a histórica derrota do partido conservador pela catástrofe que engendrou a sua gestão do Prestige. Se bem que seja inegável o papel motriz do nacionalismo galego, de raiz marxista, em muitas das lutas do passado (contra a auto-estrada AP9, contra as expropriações nas Encrobas, contra a central nuclear em Xove em 1977, contra ENCE...), na atualidade boa parte da população observa com ceticismo e nojo as proclamadas reformas de quem já liderou no governo algumas das políticas mais nocivas do ponto de vista ambiental.
Não obstante a organização desde a base continua a ser muito necessária. Atualmente o movimento libertário tem se envolvido nos conflitos abertos e participa de um jeito ativo nas mobilizações da plataforma “Galícia Não Se Vende”.
Os macro-portos, os planos eólicos e agrícolas e as novas autovias e estradas de ferro, elitistas e destrutivos com a natureza e a população, fariam parte do capítulo das lutas que ainda temos que enfrentar, perder ou ganhar.
ANA > Já se sente o efeito do aquecimento global na Galícia?
CRR < O ciclo da desflorestação e da progressiva desertificação da nossa terra foi aberto pela mão do homem há várias dezenas de anos e os próprios políticos reconhecem hoje que Galícia está num lugar muito frágil e já está a sentir os sintomas deste outro fenômeno global.
Para nós a existência do aquecimento global não é mais que outra prova da imparável degradação ambiental que observamos à nossa volta. Mas a nossa denúncia deve falar das causas e não só dos efeitos.
ANA > Decrescimento ou desenvolvimento sustentável? Muitas reflexões e críticas de vocês vão de encontro a este conceito, “desenvolvimento sustentável”, não?
CRR < Somos contrários ao Desenvolvimento. No coletivo editorial achamos que é muito necessário meditarmos as palavras que empregamos para termos o controlo sobre as nossas vidas. No plano que se fez para o primeiro monográfico quis salientar já no próprio título (“A falácia da sustentabilidade”) que nos opomos de maneira frontal à sustentabilidade deste monstro em declive que é o sistema de economia capitalista. Algumas das reflexões dos nossos colaboradores recolheram esse elemento da proposta.
“A Civilização Enferma”, o novo monográfico, reivindica a necessidade atual de renunciarmos às ilusões domésticas que oferece a civilização capitalista em prol da saúde, da plena liberdade e do bem comum. Frente aos discursos do ambientalismo reformista, nós reivindicamos que o capitalismo caia para que a vida continue. Mas, como pessoas libertárias, procuramos também uma prática sem autoritarismo e não acreditamos na possibilidade de um decrescimento real num mundo controlado pelos estados e as multinacionais.
ANA > Podemos afirmar com todas as letras que as corporações farmacêuticas são as indústrias mais asquerosas, podres e aterrorizantes do planeta, que só se preocupam com o lucro?
CRR < Somos conscientes da condição totalmente perniciosa de todas as indústrias humanas que se têm ensaiado sob modelos autoritários. Há que lembrar que a indústria capitalista não é senão a vanguarda de um sistema de dominação baseado na transformação e/ou destruição da natureza, da nossa própria natureza.
A submissão atual da alimentação e da saúde humana e animal à ditadura do máximo lucro é um fato verdadeiramente arrepiante. As corporações farmacêuticas, na realidade são mais uma parte de um complexo monstro que nunca vai parar para pensar nos efeitos devastadores das suas ações.
ANA > Querem acrescentar algo mais?
CRR < A ideologia do capital está tão difundida, que cada vez parecem ser menos as pessoas que concebem um mundo livre da sua coação. Mas somos nós, os indivíduos, que temos as respostas todas. Só nós temos a chave para prender o bicho que combatemos. E para isso é necessária a comunicação.
Saúde e Ren de Ren!
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